quarta-feira, setembro 11, 2013

Só ela é Delasnieve - Perfil traçado por Gabriel Ibrahim e Raquel de Souza


Só ela é Delasnieve 
                   por Gabriel Ibrahim e Raquel de Souza*
Delasnieve Daspet vive rodeada de coisas que ama. Em sua sala, há obras de arte por toda parte. No quintal, já perdeu a conta de quantos gatos abriga, além dos dois cachorros que ganhou do filho. Porém, mais do que apreciadora de arte ou amante dos animais, Delasnieve é uma apaixonada pelo ser humano. Ativista de causas da paz, sociais, humanas, ambientais e culturais, ela não mede esforços para defender aquilo que acredita.
Nascida em Porto Murtinho (MS) – divisa do Brasil com o Paraguai -, é conhecida como “a poeta do Pantanal”. Apesar de ter mais reconhecimento fora do estado e do país, procura sempre valorizar suas origens. “Penso que se nós não valorizarmos o que é nosso, como é que podemos querer que os outros nos valorizem? Eu tento mostrar o que existe aqui, digo pra todo mundo que moro no pedaço mais lindo do Brasil e da América do Sul, que é o Pantanal sul-matogrossense. Eu não nasci em São Paulo, eu não nasci no Rio, eu não nasci no Rio Grande do Sul, eu nasci aqui. Pra onde eu vou, levo comigo minha cidade e o meu estado”, conclui.
O reconhecimento nacional e internacional se traduz em prêmios que enchem as prateleiras de seu escritório. Ela diz que tem carinho por cada um deles, alguns de maneira especial, como o “nó da amizade” - um nó feito artesanalmente com palha - que ganhou dos índios Xavante.
Delasnieve é apaixonada por sua família: por sua irmã, por seu marido, com quem é casada há 40 anos, e por seus dois filhos. Parou de trabalhar por seis anos para se dedicar exclusivamente a eles, e diz que mesmo agora que já não moram mais com ela, uma ligação profunda de unidade, amor e respeito permanece. “Ensinei a eles o respeito pelos seus semelhantes, o respeito aos mais velhos e o respeito a si próprio.”, complementa.
A escritora nasceu e foi criada católica, chegou a ser coroinha, “filha de Maria” (grupo de devotas que realiza encontros religiosos e trabalhos comunitários) e até a ajudar nas celebrações da Igreja. Mas decidiu sair por ter opiniões diferentes sobre alguns assuntos. “Flertou”, como ela mesmo define, com a Igreja Batista, leu os livros do Espiritismo, e hoje em dia se considera espiritualista. “Gosto e respeito todas as religiões, porque todas elas têm suas qualidades e seus defeitos, e eu tentei buscar de tudo que há dentro delas o melhor”, explica.
Seu trabalho como ativista da paz é notório em nível nacional. É Embaixadora pelo Círculo Universal de Embaixadores da Paz (entidade ligada à ONU – Organização das Nações Unidas), e autora de diversos ante-projetos – a exemplo da Lei 4.304, que instituiu tanto o Dia Estadual da Cultura e da Paz, no dia 21 de setembro, quanto a adoção da bandeira da paz (a ser hasteada nessa data) e a criação do Prêmio Paz e Cultura, promovido pelo governo de Mato Grosso do Sul.
É ainda diretora da Associação Internacional Poetas Del Mundo, uma rede presente em 119 países e em mais de 500 municípios brasileiros que reúne escritores, artistas plásticos e pessoas ligadas a diversas áreas culturais. O objetivo da entidade é divulgar a cultura como fator de transformação social, por meio da educação. Na internet, Delasnieve tem um fórum no portal UOL, que começou com 20 pessoas e hoje agrega mais de 30 mil membros. Esse espaço conta com grupos de discussão de literatura, poesia, política, dentre outros. Como se considera uma “formadora de opinião”, ela reconhece que tem que ter responsabilidade com tudo que escreve. “Mas nunca me omito, eu tomo posição. Acho a Internet fantástica para se divulgar as coisas”, enfatiza.
A poeta do Pantanal
Para Delasnieve, escrever é natural. Começou incentivada pelo pai logo na infância, quando discutia sobre livros, escrevia cartas e se iniciava na poesia. Apesar dos vários livros do gênero publicados, não se define como poeta, mas como amante da poesia. “Eu sempre falo isso, pois todos nós somos poetas. Todo sonhador é um poeta”, define.
Sobre a poesia, ela diz que são colocados muitos rótulos, quando esse gênero deveria ser descomplicado. “Poesia é transferir para as pessoas de forma simples e direta exatamente aquilo que você imagina”, resume.  Na tentativa de democratizar e de massificar esse modo de expressão, Delasnieve desenvolve projetos em bairros, vilas, e especialmente em escolas. Essa atenção especial tem um motivo: “As escolas devem promover a participação da leitura. Com a leitura a criança vai aprender a viajar, a descobrir horizontes, a descobrir a sua cidadania e, mais do que isso, se descobrir. É com a criança que nós temos que trabalhar”, defende.
            E foi por meio das crianças que, em 2012, Campo Grande conquistou o recorde de maior apelo estudantil do país pela paz, entrando para o RankBrasil (empresa independente que registra exclusivamente recordes brasileiros). Os “apelos” das crianças consistiam em registrar frases ou desenhos que expressassem seus respectivos sonhos pela paz. Os registros, futuramente, serão arquivados em um livro e enviados para a ONU em parceria com a editora campo-grandense Life. A ideia inicial do projeto foi de Valter Jeronymo, diretor comercial da empresa. A princípio seria apenas um desenho coletivo feito pelas crianças, mas Valter procurou Delasnieve, que na mesma hora “comprou” a ideia e a transformou nessa grande iniciativa.
            Para Valter, o diferencial da autora é justamente o fato de ser uma pessoa bem relacionada tanto politicamente quanto com as associações literárias. Além disso, ele a define como uma pessoa muito dinâmica e que busca sempre inovar nos seus projetos, se esforçando para colocar todos em prática. “Muita gente tem ideias, o problema é fazer acontecer, e ela tem esse diferencial de tirar as coisas do papel”, elogia o editor. Outro ponto que Valter ressalta é o apoio que ela dá aos seus parceiros de trabalho.
Delasnieve gosta de sonhar alto. Em 2011, concorreu à cadeira n° 31 da Academia Brasileira de Letras. “Olhei o currículo dos outros concorrentes e falei ‘Gente mas eu tenho um currículo quase tão bom quanto o deles, vou me arriscar’”, diverte-se. Foi a primeira sul-mato-grossense a concorrer e conseguiu ficar entre os 10 pré-selecionados. Se houver a possibilidade no futuro, ela diz que concorreria novamente, pois acredita que falta diversidade regional na entidade. Atualmente, 25 dos 40 membros residem no Rio de Janeiro.
Mas afinal, por que Delasnieve? Certa vez, ainda criança, perguntou ao pai. A resposta foi simples: “Hija mia, sólo tú tienes este nombre.”. “É um nome pesado, difícil, eu não gostava dele mas hoje é uma identidade. Eu não poderia ter outro nome, me sinto totalmente Delasnieve.”
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Apaixonada pelas letras, escritora cursou Jornalismo por dois anos

            Essa é uma curiosidade que poucos conhecem sobre Delasnieve Daspet: o fato de ela ter cursado dois anos de Jornalismo na Faculdade Casper Líbero, uma das mais antigas escolas de Comunicação do Brasil. Resolveu cursar Direito porque na época da sua juventude, o Jornalismo não dava a garantia financeira necessária para trabalhar e estudar. Se formou advogada pela FUCMAT (Faculdades Unidas Católicas de Mato Grosso – atual Universidade Católica Dom Bosco) em 1975. Mas confessa: “o Jornalismo foi a minha grande paixão escolar. O Direito foi o que me deu a estrutura para continuar trabalhando e poder ajudar a me manter.” Movida por essa paixão, trabalhou muitos anos em diversos jornais locais como repórter e colunista. Foi percursora no jornal O Estado de Mato Grosso, trabalhou no A Luta Matogrossense, no Diário da Serra e chegou a dirigir o jornal do diretório acadêmico da FUCMAT por vários anos. Algumas de suas reportagens repercurtiram até no exterior.
Segundo a autora, foi através do Jornalismo que surgiu a paixão pela militância em prol das minorias. Sobre o momento atual, ela diz que vê com muito entusiasmo a onda de protestos que tomou conta do Brasil nas últimas semanas. “Eu já me coloquei junto com esse movimento, pois sou a atual presidente do Conselho Estadual de Cultura. A cultura é a porta de todas as outras reivindicações, porque um povo culto é um povo que conhece seus direitos”, finaliza.
SÓ ELA É DELASNIEVE - perfil traçado por Gabriel Ibrahim e Raquel de Souza - acadêmicos do Curso de Jornalismo da UFMS de Campo Grande-MS

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